hegemonia arquitetônica

e a vernácula na amazônia urbana

Esta é uma versão simplificada da apresentação que fiz na conferência CIAP ABAP no Rio de Janeiro, em 28 de maio de 2026. Um artigo e um capítulo de livro futuros (listados em publicações) exploram esses conceitos com mais detalhes.

This is a simplified version of the presentation that I gave at the CIAP ABAP conference in Rio de Janeiro 28 May 2026. A forthcoming article and book chapter (listed under publications) explore these concepts in further detail.

Antes de começar, considero necessário reconhecer minha posição. Eu sou uma mulher branca, sisgênero, nascida nos eua, e num mundo que da muitas privilegias para as pessoas com essas qualidades. Tudo isso fez possível que eu realizasse todo o trabalho atras de esta apresentação e que eu o compartilhasse congresso do ABAP no Rio de Janeiro.

Também quis compartilhar um pouco da minha historia para conectar o trabalho na amazônia com o Rio. No ano 2010, eu tive a oportunidade de estudar no Rio fazendo um intercambio na universidade. Eu morrei na comunidade autoplanejada Rocinha, muito perto da rua 4, o qual passou por uma transformação aquele ano. Alegando razões de saúde pública, o governo estava investindo dinheiro dos contribuintes no alargamento da estrada, que incluía áreas verdes, gestão de resíduos e construção de apartamentos melhorados para os moradores desalojados pelo projeto.

A comunidade autoconstruido Rocinha, com a rua 4 destacado em laranja

Foi neste momento que eu fique muito interessada no trabalho que faço hoje: pesquisas em justiça ambiental que visa compreender as conexões entre os ambientes construídas e a saúde das pessoas e da ecologia.

Imagens de satélite de iquitos, a terceira maior cidade da amazônia.

Sete anos depois, eu aprendi que existe a arquitetura paisagista (através do burle marx) e fiz tudo o que pude para começar um mestrado nisso na universidade de washington, em seattle, eua. Lá, eu conheci pessoas que estavam trabalhando na amazônia. Agora tenho oito anos de experiencia lá, incluso trabalhando com as comunidades que são o foco desta apresentação.

Tenho enfocado em iquitos, peru. Com meio milhão de habitantes, iquitos é a terceira cidade mais grande da amazônia depois de manaos e belém. Todo o região amazônico tem sido y segue sendo urbanizado rapidamente. Até 70 porcento das pessoas no região amazônico moram em cidades, e até um 1 em 3 dessas pessoas mora em comunidades autoplanejadas considerados inadequadas. A maioria dessas comunidades também estão localizadas nas zonas inundáveis das cidades amazônicas e utilizam técnicas de construção vernaculares.

Na amazônia, até 70 porcento de pessoas moram em cidades, e até 1 em 3 em comunidades vernáculas nas zonas inundáveis das cidades.

Hoje em dia em iquitos, existem basicamente três tipologias de comunidade. A melhor conhecida é a da habitação formal adequada, aquelas casas desenhadas e construídas na terra firme utilizando técnicas pós-coloniais que são considerados adequadas para os habitantes. Também comunidades formais precárias. Estas são construídas na terra firme utilizando técnicas pós-coloniais e, ao mesmo tempo, carecem de infraestrutura básica de apoio à saúde.

Aqui estou me concentrando no terceiro tipo, a comunidade vernácula. As comunidades vernáculas são desenhadas e construídas utilizando tecnologia ancestral adaptada às dinâmicas hidrológicas e à biodiversidade local.

As habitações palafitadas e sazonalmente flutuantes. Desenhos pelo arquiteto Jorge Burga Bartra e compartilhados pela arquiteta Gabriela Vildósola

Em resposta a séculos de habitação e adaptação humana, as comunidades vernaculares da Amazônia são frequentemente construídas construídas nas planícies aluviais dos rios, e essa proximidade sustenta a vida. Podem ser palafitadas ou construídas para flutuar sobre os níveis em fluxo das aguas amazônicas.

Algumas das comunidades vernáculas são os entre os bairros mais antigas de iquitos. A imagem encima e as imagens debaixo são de bajo belén (baixo belen), a comunidade vernácula mais grande e antiga de Iquitos, com milhes de habitantes. Debaixo, pode ver como fica a comunidade durante a cheia e a estação do rio baixo.

Encima: bajo belén (baixo belém), a comunidade vernácula mais grande e antígua de iquitos, durante a cheia e a estação das aguas baixas.

As comunidades vernáculas nas zonas inundaveis das cidades amazonicas representam soluções para os desafios maiores para as cidades amazonicas hoje: mudanças climáticas, a perda de espaço verde e da biodiversidade, e — talvez o mais óbvio e o menos valorizado — para abrigar os trabalhadores de baixa renda que sustentam o funcionamento da cidade e as crescentes populações de recém-chegados.

No entanto, na maioria dos casos até agora, essas comunidades são consideradas informais e carecem de apoio público para a infraestrutura de saúde necessária para demonstrar em que medida elas representam soluções para esses desafios urbanos multifacetados.

Isso nos leva as perguntas de investigaçao que guiam este trabalho:

 

Por que as comunidades vernaculares nas zonas inundaveis não possuem apoio sistemático para infraestrutura básica de apoio à saúde?

Por que eles são excluídos do planejamento?

Por que eles existem em primeiro lugar?

 

Começando com a ultima pergunta, no caso do peru, assim como nas cidades capitalistas pós-coloniais em toda a Amazônia e ao redor do mundo, o crescimento das populações urbanas acontece mais rápido do que os serviços (por exemplo habitação) necessários para apoia-as. Isso leva os novos migrantes urbanos a viverem da maneira que conhecem, com base em gerações de experiencia vivendo na floresta tropical.

Mas ao longo da historia colonial, (um período bastante curto em comparação com a longa história dos povos que vivem nas águas amazônicas), tem surgido uma força muito forte que faz que viver usando as tecnologias ancestrais de habitação parece ilegítimo.

Proponho o termo hegemonia arquitetonica para descrever essa força.

 

hegemonia

O poder de grupos dominantes de ditar a narrativa dominante, fazendo com que sua posição pareça “superior” e “natural,” geralmente em detrimento dos grupos oprimidos.

 

Essa hegemonia arquitetônica acaba sendo a razão oculta por trás das explicações explícitas para todas essas perguntas.

É a razão que nos anos 80, implementaram um lei para celebrar e proteger os predios construidos durante o boom da borracha, o qual construiu a cidade de iquitos (e manaos e muitas mais) paralelo com um genocídio indígena. Estes predios são construidos usando disenhos não adaptados ao lugar e com matereais imprtadas de europa.

Esta resolução ministerial criou proteções formais que celebram a zona mais antiga da terra firme de Iquitos e para muitos de seus edifícios, que foram construídos durante o ciclo da borracha usando estilos e materiais importadas. Tipologias amazônicas preexistentes foram excluídas da zona monumental.

É o razão que continuamos a pensar que morar na terra firme nesses tipos de habitações é o único jeito ilegítimo e seguro de viver, mesmo que esse tipologia tem os seus problemas de inundação sempre que chove (e sempre chove na floresta tropical), e embora esteja associada com varias problemas de saúde pública (por exemplo, ilhas de calor, doenças transmitidas por mosquitos, leptospira).

É o razão que as zonas inundáveis são classificadas como "zonas de risco" nos mapas de planejamento, apesar de serem o modo de vida mais evoluído na região amazônica.

O titulo de este mapa, “plano de risco e vulnerabilidade natural,” reflete claramente a hegemonia arquitetônica, Em vez de reconhecer a importância socioecológica das planícies aluviais, elas são rotuladas como áreas de risco inerente.

A gente tem feito e segue fazendo pesquisas, como muitos outros pesquisadores arredor do mundo, provando o que já sabemos: as comunidades vernáculas, autoconstruídas, e autogeridas apoiam a saúde humana e ecológica, apesar da falta de infraestrutura básica.

para informação detalhada sobre este estudio, visita iquitos.thinkoutside.org/index.php/en/

E claro que pode ser melhor. Na verdade, se nos preocupamos com a justiça ambiental, então as condições precisam ser melhoradas. Mas as barreiras têm camadas, e a hegemonia arquitetônica que as sustenta precisa ser confrontada.

Então eu proponho um matriz teórico para a valorização das tipologias diferentes dos ambientes construídos da amazônia urbana. Um dos objetivos desta estrutura é abrir espaço para que a arquitetura vernácula seja reconhecida e incluída no planejamento urbano. Ela demonstra que as tipologias vernaculares têm o potencial de se tornarem o tipo de comunidade que melhor apoia a saúde humana e ecológica, especialmente diante das mudanças climáticas.

As recomendações para os planificadores e os políticos começam com o seguinte:

1. Reconheça que a ideia de que as comunidades vernáculas nas zonas inundáveis não são legítimos é, no seu sentido mais profundo, uma construção social que vem da hegemonia arquitetônica.

Devemos enfrentar essa barreira fundamental ao mesmo tempo em que abordamos outras duas recomendações:

2. Inclua as comunidades vernaculas na planificação urbana (legalizar, regularizar, seja qual for o caminho político adequado para cada circunstância).

3. Invista sistematicamente em comunidades vernaculares para garantir que as necessidades básicas de infraestrutura (saneamento, água potável, eletricidade, durabilidade, acesso) sejam atendidas.

Em todo o mundo, em todos os contextos socioeconômicos, de manaos à dinamarca, já existem varias desenhos, tanto proposto quanto construído. Eles demonstram como as comunidades sobre a agua podem funcionar com toda a infraestrutura necessária para melhorar as vidas das pessoas e sustentar a ecologia. Ou seja, a tecnologia já existe. Os caminhos políticos já existem. A única coisa que resta é mudarmos de ideia.

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